Felipe Ravizon de Jesus – ravizo@hotmail.com
RESUMO
Até onde vai o papel da mídia no direito de informar é o foco deste trabalho. O que é assunto de interesse público e o que deixa de ser quando ultrapassa a linha entre a notícia de interesse do povo para bisbilhotar a vida privada. Esse é um tema muito delicado ao qual jornalistas não se fazem entender e nem reflexionam, o que muitas vezes, voluntariamente ou não, cai em sensacionalismo.
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Palavras-chave: sensacionalismo, Fernando Henrique, Isabella Nardoni, Cazuza, Ronaldo
INTRODUÇÃO
Em alguns exemplos claros na história da comunicação, não raros no Brasil e no mundo, mas neste caso o foco se deterá à fatos evidentes ocorridos no Brasil, a responsabilidade social da imprensa de reportar episódios de interesse público é confundida ou meramente substituída pelo escândalo da notícia e especulação da vida privada.
Esta é uma linha tênue que muitas vezes é ultrapassada por jornalistas ou mal intencionados ou por acreditarem que tudo que acontece com pessoas públicas deve ser de conhecimento público. Mas então essas personalidades, por exercerem um cargo de grande visibilidade, como o presidente da república ou jogadores famosos e músicos envolvidos em escândalos não tem direito à vida particular, como todos os seres humanos do mundo devem ter e prezam por esta.
2 DESENVOLVIMENTO
A maior dificuldade em enfrentar o aparente indissociável privado e público está associada à priori a particularização da moral, da consciência versus a tentativa em si de universalizar conceitos éticos e morais. Em suma, uma valorização dos conceitos carregados pela pessoa jornalista, conceitos morais e toda a cultura armazenada em detrenimento da busca pelo consenso moral adequado ao máximo ao exercício da profissão. Francisco José Bicudo pergunta (2004) pergunta O que é de interesse jornalístico e o quê não é? Quando, como e o quê devemos publicar? Por que não pode publicar? Como deve se estabelecer esta relação? (Bicudo, 2004, p.148), em seu livro Caros Amigos e o resgate da imprensa alternativa no Brasil
Segundo Francisco José Karam, no livro Jornalismo Ética e Liberdade, (1997),
cada indivíduo carrega, consigo, de certa forma, o conjunto de valores morais sociais, que se expressam diversamente em sua singularidade. (...). As posições e opiniões conservadoras, que particularizam a humanidade e não a universalizam, que justificam pelos preconceitos pessoais e particulares a condenação universal de outros valores que não os seus, precisam ser derrotadas. (Karam, 1997, p.83)
Karam (1997) trata o tema ao analisar a polêmica matéria publicada por veja em 26 de abril de 1989, com o título "A Luta em Público contra a Aids", e que segundo o autor, impossibilita um consenso universal sobre o que é a moral e a consciência jornalística, mas permite contextualizar estes aspectos morais da cobertura feita sobre cazuza. É possível argumentar que a matéria com Cazuza, sem investigar a forma como se deu,(...) é jornalística e moralmente defensável. (Karam, 1997, p.78). De fato, há momentos da reportagem que são de quase puro jornalismo, mas alguns juízos de valor e exageros no tom dado à narrativa, demasiadamente trágico, remete à sensação de desrespeito à pessoa de carne e osso, sentimentos, por detrás do astro. Karam tentar explicitar o impasse da atuação profissional do jornalista frente as suas direções: o interesse público versus esfera privada do indivíduo, liberdade de informação contra respeito à dor, ao sofrimento.(Karam, 1997, p.78) Em momentos da matéria isso fica evidente:
O mundo de Cazuza está se acabando com estrondo e sem lamúrias. Primeiro ídolo popular a admitir que está com Aids, a letal síndrome da imunodeficiência adquirida, o roqueiro carioca nascido há 31 anos com o nome de Agenor de Miranda Araújo Neto definha um pouco a cada dia rumo ao fim inexorável.(veja, 1989, p.80).
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O uso de palavras fortes e chocantes em nenhum momento são poupadas, o que não confere a matéria nem uma inverdade absoluta, tão pouco uma verdade absoluta, visto que no trecho acima a revista Veja praticamente sentencia o cantor e compositor à morte, sem levar em conta o sofrimento da mãe, as esperanças, a luta para viver, o que, isso sim, ele enfatizou na matéria: a vontade de persistir, e não o caminho da possível inverdade que a revista publicou falando da morte anunciada, "o fim inexorável". O trecho a seguir da matéria narra a dor da mãe de Cazuza: lucinha, sofrida e corajosa, jamais usa a palavra Aids, preferindo "aquela doença”(...)Nervosa e emocionada, ela se culpa pelo estado do filho (Veja, 1989, p.81).
O autor de Jornalismo, Ética e Liberdade, (1997) ainda, explica a importância de saber reconhecer que, mesmo que doloroso seja, é preciso sim noticiar o que for verdadeiramente serviço público jornalístico e não fofoca, pois não é apenas na alegria que o jornalista exerce sua função. Não apenas as novidades dos grandes shows que apresentou e que por intermédio da comunicação chegaram ao seus fãs, os lançamentos e sucessos de seus discos LPs, mas também o direito do público saber que seu ídolo está doente é uma tarefa que o repórter deve cumprir.(Karam, 1997, p.85)
Sem esquecer do espetáculo da vez, que se tornou a morte da menina Isabella Nardoni. Sim, por que este é o fato mais intrigante e mais sem mistérios que pode haver na discussão sobre a manipulação das massas. A informação do espetáculo. Como no filme de Billy Wilder, “A Montanha dos Sete Abutres”, onde um jornalista inescrupuloso interfere na vida e morte de um homem para transformá-lo em notícia. Eugênio Bucci, do Observatório da Imprensa teve o privilégio de traçar este paralelo entre a desgraça ficcional e real, em texto chamado Multidões integradas ao espetáculo, onde o autor cita o fator Léo Minosa. Há 14 anos, em artigo para a revista Imagens, então publicada pela Unicamp, usei pela primeira vez a expressão "fator Leo Minosa. Recorri a ela para designar um efeito específico que as coberturas sensacionalistas podem causar na audiência(Bucci, 2008) O protagonista, o jornalista Tatum, deixa Leo Minosa para morrer numa caverna, simplesmente para vender notícia. O lugar onde Minosa está preso é invadido por abutres que querem tirar proveito financeiro da ocasião, com toda uma rede de oportunistas, que envolve as autoridades e até a esposa do sujeito que vendia ingressos para assistirem a morte do marido, assim como as pessoas que vendem espaços nos apartamentos, em frente ao assassinato de Isabella para a mídia desvairada por carnificina e uma multidão curiosa, sedenta por espetáculo, por desgraça, coberta de sangue e de vaidades, que quer aparecer na televisão a qualquer custo, não importa a situação. Assim como acontece no caso da morte da menina Isabela, onde milhares de pessoas vão às ruas para pedir sangue, justiça, e mostrar o bolo de aniversário da menina morta para a TV, como quem, num estádio de futebol, com seus cartazes, pede : “Me filma Galvão”. É o absurdo do espetáculo. Sensacionalismo puro e só.
Quem não lembra do escândalo das eleições de 1989, mesmo ano da publicação da matéria feita pela revista Veja sobre Cazuza, em que a oposição descobriu uma ex-namorada de Lula, Miriam Cordeiro, que foi ao ar, ao vivo, no horário eleitoral gratuito, dando um depoimento em que acusa o candidato a presidência de incentivar o aborto da filha Lurian, resultado do romance entre os dois. Pois depois de 15 anos, se pode relembrar do acontecido. Segundo o site terra, em matéria publicada em terça, 19 de outubro de 2004, de título Polêmica contra Lula em 89 é reeditada em Manaus,
Após 15 anos do caso Miriam Cordeiro,(...) rumor semelhante toma conta da campanha pela Prefeitura de Manaus, dessa vez contra o candidato Serafim Corrêa (PSB/PDT). E o mentor do escândalo de 1989, o empresário Egberto Batista, é o atual conselheiro e publicitário do ex-governador Amazonino Mendes(PFL), candidato adversário(Terra, 2004).
O candidato a presidência do ano de 1994, Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, também viu sua candidatura em xeque quando a mídia por pouco não larga uma notícia bomba sobre um caso fora do casamento que teria resultado em um filho. Numa verdadeira perseguição pela informação e defesa do direito de saber do leitor e cidadão, neste caso, mais do que tudo, cidadão leitor e eleitor, a revista Caros Amigos buscou saber depois de sete anos por que o fato acabou ficando nas gavetas das redações, na matéria Um fato Jornalístico, na edição de terceiro aniversário da revista, 2000, que depois é citada na reunião de matérias do livro Caros Amigos e o resgate da imprensa alternativa no Brasil, (2004). Ao contrário, Lula teve sua eleição abalada e tudo foi revelado: Foi um comportamento bem distinto daquele utilizado e adotado pela grande imprensa à época das eleições de 1989(Bicudo, 2004, 142). A situação era tão similar àquela de 89, que até o nome das ex-companheiras dos presidentes é o mesmo: Miriam. A Miriam de FHC, por sua vez, começou a ser vista com o ex-senador, à época, pelas primeiras vezes, no ano de 1988, nas noites de Brasília. Em 1991, nasce a criança, a qual, como consta na matéria, não foi tão bem recebida pelo pai.
A reportagem começou assim: o jornalista Palmério Dória ofereceu para Caros Amigos um artigo cujo título era “Presidente, Assuma!”, referindo-se ao filho gerado do romance entre Fernando Henrique Cardoso e a jornalista Miriam Dutra quando o atual presidente da República era senador. A jornalista trabalhava, e trabalha ainda, para a Rede Globo, na ocasião como repórter em Brasília, hoje como correspondente em Barcelona, Espanha".O artigo, (...) contava em detalhes, revelados por testemunhas, a reação irada do então senador, com xingos à jornalista, expulsão da sala e um pontapé no circulador de ar, que foi parar longe, no dia em que ela foi ao seu gabinete participar-lhe a gravidez(Bicudo, 2004, p.140).
Cada qual a sua maneira de agir, é visível que FHC, se resguardou melhor do que Luis Inácio Lula da Silva. Enquanto o primeiro tomou todos os cuidados, tendo maestria em formar uma guarda de cavalaria e garoto de correspondência, para auxiliar( para não dizer esconder) o fruto de seu"afair" extra conjugal, o outro foi pego de surpresa. Os membros do plano eram:
Sérgio Motta e José Serra, “cabeças do projeto presidencial”, no episódio, primeiro conseguindo para a mãe e a criança um apartamento mais confortável na Asa Sul, onde ela já morava mais modestamente, e, depois, fazendo gestões junto ao diretor de jornalismo da Rede Globo, Alberico Souza Cruz, que é o padrinho do menino, no sentido de transferir a jornalista para Lisboa, o que se efetivou(Caros Amigos, 2000, p.26-31).
Afinal, esse caso de interesse geral da nação não foi ao ar por quê? Os redatores e editores entrevistados pela Caros Amigos deram quase as mesmas respostas: o "afair" presidencial de 1988 negava, ao contrário da Miriam de Lula. E esse era um caso particular, não teria por que se envolver na intimidade do presidente. Ou senão, a linha editorial deste ou daquele veículo não trata de assuntos tão íntimos ou privados. Não há confirmação, nem o presidente nem a jornalista falam sobre o assunto, é um tema particular e afetivo, não tem caráter jornalístico(Caros Amigos Apud BICUDO, Franciso José, 2004, p. 141). Segundo Augusto Nunes diretor de redação de ZH, à época:
Fizeram uma sacanagem com o Lula, e agora como é que é?’ Mas quem fez a sacanagem com o Lula foi a Miriam Cordeiro. No caso do Fernando Henrique, a suposta mãe diz que não é. O filho tem um pai no papel, e ela não fala que Fernando Henrique é o pai. A Zero Hora nem partiu para levantar o assunto, que circulava realmente em todas as redações(Caros Amigos, 2000, p.26-31)
Ou seja, se não houvesse a intervenção da própria ex-namorada de Lula, o caso não iria à tona, como aconteceu com Fernando Henrique. Mas assim como se refere Karam em sua obra e aconteceu com Cazuza, não deveria o povo ficar sabendo como se comportam seus governantes?
Polêmica, e certamente sujeita a outras interpretações e leituras, a matéria (...) me parece essencialmente informativa, procurando costurar um mosaico de fatos e situações e depoimentos, com cuidados na apuração, reprodução e edição. Ela em nem um momento acusa o presidente, nem expõe de maneira indevida a jornalista, e muito menos submete a constrangimento e execração pública o garoto que seria fruto desta relação. Não há má fé ou falta de ética, (...) sensacionalismo ou show (Bicudo, 2004, p.141).
Este é o contraponto do tratamento dado pela revista Veja, no modo de abordar o fato delicado que a ela competia e que merecia os cuidados que o veículo não cuidou em ter.
Acho que Karam está certo. Tanto a doença de Cazuza como a doença política de esconder o jogo salientada por Bicudo, de maquiar o posicionamento de quem deve ser um exemplo de ética e postura, merecem ganhar destaque aos interessados. Pois eles existem.
Há, sem esquecer do Caso Ronaldo Nazário e o encontro supostamente indesejado com transexuais. Mas isso é público ou privado? Leia bem o texto que vai ficar claro.
REFERÊNCIAS
Vários, “Um Fato Jornalístico”, Caros Amigos, ano IV, número 37, abril 2000, p.26-31
BUCCI, Eugenio. Multidões Integradas ao Espetáculo. Disponível em
Gomes, Alexandre. Mídia e Cinema: Notícias e Abutres. Disponível em
BILLY, Wylder. “A Montanha dos Sete Abutres. [Filme-vídeo]. Produção Billy Wylder, direção de Billy Wylder. EUA) , Paramount Pictures 1951 . 1 cassete VHS / NTSC, 111 minutos. color. Son
karam, Francisco José, Jornalismo, Ética e Liberdade. 3 Edição. São Paulo: Summus, 1997.
GRAVATAI, Merengue. Veja x Ronaldo Disponível em
Palmério, Dória, et al. Um fato jornalístico. Disponível em
Revista Veja, A luta em público contra a aids. Disponível em

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