Na obra Mídia & Democracia (2005), os autores Pedrinho Guareschi e Osvaldo Biz lançam um olhar crítico sobre o problema da contradição existente entre o direito humano à informação e à livre expressão e a prática brasileira tão distante desse direito. Uma pesquisa realizada pelos autores aponta que, entre a população, não há consciência de que a televisão é um serviço público, concedido por tempo determinado a quem possa prestar esse serviço à população. Ou seja, o concessionário não possui um meio, mas é o seu gestor, embora não haja esse entendimento entre os "donos" da mídia.
Entre umas dar abordagens importantes feitas pelos autores está o uso da comunicação e das mídias como modo de participação popular, organização política e democracia, que gere a conscientização, a liberdade de idéias, de autonomia para entender o mundo ao nosso redor, de agir e exercer a cidadania, onde se possa saber o que acontece com as pessoas e com mundo, e assim contribuir efetivamente na evolução, que deve rumar no sentido da liberdade intelectual e social. Assim como na Grécia antiga era conhecida a ágora. Pessoas que se reuniam num local público, que chamavam de ágora, para discutir e decidir sobre questões que tinham a ver com todas as famílias. A isso chamaram de democracia, que seria o governo do povo, criado e legitimado pelo povo, para o bem comum deles próprios. Ou seja, a estreita ligação existente entre a mídia e a política. Onde grande parte do monopólio da comunicação existente pertence as famílias tradicionais da política. Como é o caso do império das comunicações no Maranhão, e sei lá mais o que pode ser chamado, tamanha é a teia de expropriações da família Sarney e o respectivo “coronelismo midiático” que à máfia Sarney compete.
É aí que está a importância de existir resistência, o, por mais que bafado, coro dos descontentes, que é listado pelos autores. Organizações com responsabilidade social e sede de mudança , como a CAP, “iniciativa de entidades da sociedade civil, reunidas em torno da campanha “Quem financia a baixaria é contra a cidadania”(..) encampada pela comissão de direitos humanos da câmara dos deputados, quando era Presidente da câmara o Deputado Orlando Fantazini”(p.94), e o Observatório de Imprensa, por exemplo.
“ O Observatório da Imprensa é um instrumento estratégico no processo de aumentar o grau de participação da sociedade brasileira em tudo o que lhe concerne. E a parte mais relevante é como instiga e liberta os jornalistas para alçarem vôos mais altos no ofício e debates da profissão, pelo menos onde exercem seu papel e cidadania com um pingo de galhardia. “ Tem sido um valioso estímulo para as discussões internas que hoje convertem-se em rotinas nas redações”(p.102).
Em trecho de texto do site Observatório da Imprensa, Alexandre Goulart faz um panorama de um tema crucial, ao que se refere ao estampido que a surdez do receptor, estimulada principalmente pela TV e rádio, não permite ouvir, abordado por Guareschi e Biz, na obra “Mídia e Democracia”.
“No Brasil, a televisão nasceu sob a marca do entretenimento – palavra criticada quando falamos em televisão. Em poucos anos, a TV ganhou fama e se difundiu Brasil afora. A hipnose massificante, na visão de alguns, tomou conta das classes menos intelectualizadas e o Brasil real passou a ser representado na telinha. Nos anos 70 e 80, a TV se tornou a principal mídia eletrônica brasileira, agente da unificação do país, geradora de uma identidade nacional. O sistema broadcasting, formando as redes, sobrepôs o nacional ao regional e o Brasil real passou a ser aquele reproduzido a partir de um determinado ponto de vista que informava e entretinha a maioria da população, especialmente nas telenovelas, um gênero que com o tempo se tornou genuinamente brasileiro".
O peremptório da conversa, é o direito de concessão de TV's e das rádios. É muito grande o muro da burocracia que separa os cidadãos comuns, daqueles que detém o poder do monopólio. De fato os “donos” da mídia mantém um esquema difícil de burlar. Sim, por que, em papéis invertidos a democracia senti a necessidade de escapulir entre as falhas da máfia da corrupção. Que estão, por sinal, nos representado no senado, na câmara dos deputados e não permitem que a história real saia às ruas. É o caso do tão execrado pela comunidade Internacional, acusado de censura por ter negado concessão a emissora televisiva RCM, em seu País, o presidente da Venezuela Hugo Chavez. E parece ser desvendado não tão “tirano” assim pelo livro em análise. De fato, se não há como igualar poderes, e acabar com a censura dos mais poderosos. Quando, segundo o autores, Chavez vem dando voz ao povo, abrindo portas para as populações iniciarem o tão desejado, por poucos, processo de democratização, seja intelectual, seja de participação popular, pois um deriva do outro, através de concessões de rádio e para as comunidades e TV para vias alternativas, é vitimado por infâmias dos não conformados, com a abertura social ou com a perda de espaço. A solução só pode ser mesmo censurar a censura. E a censura, sempre, vêm de cima.
“ A decisão de novas concessões de Rádios Comunitárias precisa de aprovação do Congresso Nacional, cujos inúmeros parlamentares são proprietários de rádios nacionais. Ou seja, não querem concorrência.” Daí a falta de interesse no exame dos novos pedidos, sem contar que o trabalho da polícia federal é eficientíssimo no fechamento desse tipo de estação de comunicação, quando julgam que a lei não está sendo cumprida(p.108)”.Ou seja, fazem questão de abafar a voz dos menores, quanto mais o coro dos descontentes.
“O termômetro que mede a democracia numa sociedade é o mesmo que mede a participação dos cidadãos na comunicação", cita a tônica da obra Herbert de Souza. A observação é uma verdade esquecida. O que há de mais relevante nos estudo de Guareschi e Biz, na minha opinião, está ilustrado na tentativa de sintetizar as características do que seria hoje democracia . Pois são óbvios direitos básicos do cidadão, que deve começar a ser mudado e ser visto por dentro, pelo jornalista. Algo que, hoje em dia, parece tesouros perdidos nos cursos de jornalismo. Principalmente em faculdades particulares, onde não ensinam o estudante a escrever, mas ser engolido pela lógica do mercado e ser um multimídia, e acabam por negligenciar do aprendiz o que é jornalismo. Estão mais preocupados em dar aulas de assessoria de imprensa e formar assessores, apresentadores e não jornalistas. Olhar página 86 em diante.
Uma mídia que não permite a participação dos cidadãos, que não abre um canal realmente interativo, é uma mídia que não se abre à realidade e aos valores de uma nação, mas os impõe de forma subjetiva. Pois não eram considerados cidadãos todos os que sentavam na ágora. Apenas aqueles que “falassem”, que apresentassem uma proposta ou alternativa ao problema em discussão é que recebiam o título de cidadão. Assim como só é cidadão aquele que tem acesso a informação, ao conhecimento e, assim, a liberdade mental, e a condição de defender suas crenças e batalhar por elas. E isso se configura quase impossível, num país onde as telenovelas e os programas de auditório, enfim toda lógica do espetáculo, palavra que será ainda muito citada neste texto, é estabelecida por um oligopólio ou monopólio da comunicação, tendo em vista a Rede Globo, que não dá espaço para formar cidadãos, e sim o processo de massificação que a essa compete, se contabilizarmos a RBS TV e outras filiais da emissora mais poderosa do Brasil.
Afinal, o que é e para que serve a televisão? Serve para entreter e mostrar espetáculos. Como o futebol e as novelas. Ou o espetáculo da vez, que se tornou a morte da menina Isabella Nardoni. Sim, por que este é o fato mais intrigante e mais sem mistérios que pode haver na discussão sobre a manipulação das massas. A informação do espetáculo. Como no filme de Billy Wilder, “A Montanha dos Sete Abutres”, onde um jornalista inescrupuloso interfere na vida e morte de um homem para transformá-lo em notícia. O protagonista, o jornalista Tatum, deixa Leo Minosa para morrer numa caverna, simplesmente para vender notícia. O lugar onde Minosa está preso é invadido por abutres que querem tirar proveito financeiro da ocasião, com toda uma rede de oportunistas, que envolve as autoridades e até a esposa do sujeito que vendia ingressos para assistirem a morte do marido, assim como as pessoas que vendem espaços nos apartamentos, em frente ao assassinato de Isabella para a mídia desvairada por carnificina e uma multidão curiosa, sedenta por espetáculo, por desgraça, coberta de sangue e de vaidades, que quer aparecer na televisão a qualquer custo, não importa a situação. Assim como acontece no caso da morte da menina Isabela, onde milhares de pessoas vão às ruas para pedir sangue, justiça, e mostrar o bolo de aniversário da menina morta para a TV, como quem, num estádio de futebol, com seus cartazes, pede : “Me filma Galvão”. É o absurdo do espetáculo. Sensacionalismo puro e só.
Então isso é informação que se preze? Essa novela da desgraça real é o que temos direito de assistir? Como bem público a televisão deve informar, dar conteúdo e não ludibriar e unir as pessoas através da massificação, mas sim através da informação e do conhecimento. No livro “Mídia e Democracia” é apresentado, um telespectador passivo, incapaz de se desvencilhar da masmorra onde está preso, a TV. Como as pessoas que vivem as vidas que enxergam na novela. Vestem a moda ditada pela programação do horário nobre da globo. Envolvidos pelo lúdico (e gratuito), consomem a programação televisiva sem se preocupar com o que estão vendo, como um passatempo alienante que idiotiza. O telespectador, não é de todo passivo desta maneira. Mas de algum modo, àqueles em que o mínimo de educação e discernimento não chegaram ou não foi logrado êxito é de se imaginar quão difícil deva ser se situar e entender o que é real e o que é apenas sombra, como no “mito da caverna de Platão”.
O histórico da televisão mostra como esse meio, difusor de entretenimento, tem o maior poder e potencial de transmitir conhecimento de forma simultânea, entre todas as mídias, de mobilizar as massas. E isso deve ser usado, para ajudar a instruir e construir cidadãos conscientes, que tenham noção do que se passa no seu país e qual é o andamento do mundo. Para poderem ajudar a escrever a história. E não para nos deixar cada vez mais enfadonhos, gordos e absortos da realidade. Bundas gordas sentadas em frente à diversão da alienação.
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